Retrato da palavra

Organizado por Clariana Zanutto e Gustavo Ranieri

Assim como as histórias, que são capazes de se manter intactas na memória ao longo dos anos, as paisagens têm também a capacidade de influenciar olhares, expressões e movimentos, ainda que se modifiquem com o tempo e com a intervenção humana, mais do que isso, a cada instante, os lugares – dos inacessíveis aos comuns – transbordam reflexões, impregnam lembranças e levam os escritores a transformá-los em versos, contos, crônicas e romances. Foi assim com os seis autores que inspiraram este especial fotográfico aqui. A partir de trechos das obras de Oswald de Andrade, Clarice Lispector, Mario Quintana, Jorge Amado, Manuel Bandeira e Rachel de Queiroz, seis fotógrafos retrataram a paisagem recorrente nos livros desses consagrados escritores, buscando a essência de cada um respectivamente em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Salvador, Recife e Fortaleza. O resultado dispensa explicação. Afinal, como tudo o que é bom, basta sentir.

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“Esta foto tem o clima perfeito do livro Capitães da Areia, de Jorge Amado. Considero um retrato autêntico da Bahia.”
Christian Cravo

Desde pequenos na arriscada vida da rua, Os Capitães da Areia eram como homens, eram iguais a homens. Toda a diferença estava no tamanho. (…) Quando outras crianças só se preocupavam com brincar, estudar livros para aprender a ler, eles se viam envolvidos em acontecimentos que só os homens sabiam resolver. Sempre tinham sido como homens, na sua vida de miséria e de aventura, nunca tinham sido perfeitamente crianças. Porque o que faz a criança é o ambiente de casa, pai, mãe, nenhuma responsabilidade. Nunca eles tiveram pai e mãe na vida da rua.
E tiveram sempre que cuidar de si mesmos, foram sempre os responsáveis por si.
Jorge Amado
do livro Capitães da areia

 

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“Em sua afinidade com o mar, Clarice fazia sobressaltar na experiência cotidiana sua rotina de insônia e cumplicidade com a natureza. E lá estava eu, às 6h da manhã, sob a brisa para tentar captar sua alma ao vento no olhar de Copacabana.”
Gustavo Pedro

O mar. Tenho deixado de ir ao mar por indolência. E também por impaciência com o ritual necessário: barraca, areia colada por toda pele. (…) Tenho uma conhecida que mora na Zona Norte (…) e prometi que ela viria em casa para entrarmos no mar às seis da manhã. Por quê? Porque é a hora da grande solidão do mar. Como explicar que o mar é o nosso berço materno mas que seu cheiro seja todo masculino; no entanto berço materno? Talvez se trate da fusão perfeita do masculino com o feminino. Às seis horas da manhã as espumas são mais brancas.
Clarice Lispector
O mar de manhã
do livro Crônicas para jovens do Rio de Janeiro e seus personagens

 

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“O Recife de Manuel Bandeira é um espaço subjetivo, sensorial e emotivo, ao buscar o Recife dele, acabei por encontrar o Recife em mim. Esse foi meu alumbramento.”
Rafael Lage

Recife
Não a Veneza americana
Não a Maurisstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois –
Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância
(…)
Atrás de casa ficava a rua da Saudade…
… onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da rua Aurora…
… onde se ia pescar escondido
Capibaribe
(…)
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
Foi o meu primeiro alumbramento
Manuel Bandeira
Evocação do Recife
do livro Melhores poemas de Manuel Bandeira

 

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“A luz do outono é especialmente suave, valoriza as cores da natureza e faz com que as imagens sintonizem melhor com as palavras do poeta.”
Tânia Meinerz

(…)Basta dizer que era
outono em Porto Alegre
Eu disse ao visitante:- Está vendo?
As cores não se misturam:
tudo parece recortado
a tesourinha no horizonte.
A paisagem de Porto Alegre
é anterior ao impressionismo.
Ele agachava-se, apertava,
arregalava os olhos,
concordava com tudo.
E, de regresso ao Rio, escreveu:
“Como eles não têm nada que
mostrar; gabam os crepúsculo!”
Mario Quitana
O mesmo assunto
do livro Caderno H

 

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“A Rachel de Queiroz escreveu nas páginas de sua obra, entre o sertão e o mar, seu povo e seu lugar. Assim como ela, os jangadeiros escrevem as suas histórias de vida na areia e nas ondas do mar.”
Tiago Santana

E convocou os jangadeiros da praia,
os donos das aves de pau, com asas brancas de pano,
Os leva e traz da terra e mar…
E, no meeting que as ondas aplaudiam,
Batendo palmas na areia branca,
Ouviu-se a jura solene:
Nunca mais a sombra preta de um cativo
mancharia a consciência branca de suas velas!
(…)
Os jangadeiros juraram
e cumpriram o juramento,
e foi assim que acabou o vaivém trágico da mercadoria negra…
Rachel de Queiroz
Nascimento
do livro Mandacaru

 

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“O Minhocão aos domingos se transforma em passeio público. E na ocupação pedestre do centro da cidade, encontro a relação um tanto difusa dos desejos de cada um.”
Feco hamburger

Numa manhã doirada da cidade, encontro Daisy na Rua 15, esquina do Largo do Tesouro.
Despedimo-nos depois da ligeira conversa. Olho para trás e vejo seu chapéu flutuar descendo a Rua 15.
Sigo-a sem saber até hoje por quê. Ela atravessa a Praça Antônio Prado, desde a Avenida São João, envereda pela Rua Anhangabaú por debaixo do Viaduto Santa Ifigênia. Acompanho-a de perto, agora interessado. Ela para à porta de uma das casas amarelas e iguais que defrontam o Cassino Antártica. Esbarra num moço que vem saindo. Entra sem olhar para trás.
Eu abordo o moço e pergunto quem mora ali. – “É uma pensão de rapazes”.
Oswald de Andrade
do livro Um homem sem profissão

 

Fonte: Clariana Zanutto e Gustavo Ranieri. Retrato da Palavra em Revista da Cultura, edição 48, julho de 2011.

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