Movimentos sociais, movimentos culturais…

“Para aqueles que fazem uma análise mais tradicional do que são as ações desses movimentos sociais e culturais, esses sujeitos não estão se manifestando ou resistindo, nem sequer pertencem ao que gostam de classificar como movimentos sociais, remontando a conceituações bastante limitadas. Para esses analistas, esses sujeitos estão apenas criando “espetáculos”, se exibindo num sentido depreciativo em que a chamada “espetacularização” da vida política nos movimentos sociais e culturais é vista como negativa, como um conjunto de ações fragmentadas e despropositadas, que não passam de um “carnaval” inconsequente, sem objetivos e ações efetivas quanto à desestabilização e tomada poder político e institucional existente e vigente.

Entretanto, perguntamos: ainda é viável e aceitável generalizar a afirmação conservadora de que o carnaval, os processos de carnavalização e suas expressões performáticas são pouco importantes para a compreensão da vida social e cultural dos povos? Ainda é possível negar que, mesmo se seus sujeitos a denominarem de “carnaval”, de “espetáculo”, de “exibição”, de “manifesto” (ou do que quiserem chamar!), estas expressões relacionam-se também historicamente a muitas perspectivas e práticas de transformação, contestação e integração social, cultural e política? Há bastante tempo, por exemplo, muitos pesquisadores de áreas tradicionais do conhecimento, como a História, a Antropologia, as Artes, analisam o carnaval sob outras óticas (BAKTHIN, 2008; MEIHY, 1986; DAMATTA, 1997), críticas dos conservadorismos de certos olhares preconceituosos, que não se enxergam como tais, ao contrário, se definem também como críticos, rebeldes e revolucionários. Além disso, qualquer noção de espetáculo ou de espetacularização como pura e simples exibição inconsequente ignora um vasto universo teórico e prático inter e transdisciplinar, desde os Estudos de Performance, os Estudos Culturais até as já consagradas áreas de Antropologia da Performance, que criticaram por décadas essas visões superficiais que tentam delimitar as ações de sujeitos e/ou de movimentos sociais e culturais, situando-as apenas quanto às perspectivas de tomada de poder político tradicional no Estado Moderno.

Muitas das pessoas que protagonizam movimentos sociais e culturais contemporâneos se enxergam como singularidades em meio às coletividades, e consideram que ser dono, autor e sujeito de seus próprios comportamentos expressivos, de suas performances, de suas corporalidades e de suas trajetórias em certos grupos ativistas já é efetivamente “tomar o poder”, ter direitos, exercer cidadanias, sem que isso precise ser sancionado e legitimado por nenhum estudo, legislação, governo ou Estado. Se são herdeiros históricos de uma vertente de pensamento e ação de caráter anarquista ou ainda do grande legado da contracultura, são outros pontos interessantes para se pesquisar e estudar. Se isso diz respeito a apenas a alguns sujeitos, enquanto que a outros, o que interessa são apenas as formas de sociabilidade em vivências mais descomprometidas e menos intencionais dessas experiências, também são aspectos interessantíssimos a serem investigados. Porém, tanto num ou noutro perfil (e em suas múltiplas gradações possíveis…), suas práticas são marcadamente críticas dos autoritarismos de certos marxismos e suas vertentes de análise com as quais, desde séculos anteriores, disputaram e disputam, conscientemente ou não, poderes simbólicos. Para grande parte das pessoas que participam dos novos movimentos sociais e culturais contemporâneos, pouco importa se os pesquisadores ou pensadores as classificam como anarquistas, marxistas, revolucionárias, rebeldes, pós-modernas, protagonistas de resistência ou de espetáculos inconsequentes e sem direção. Muitas de suas performances são – com intenção ou não deliberada – críticas criativas e corrosivas às tentativas malfadadas de classificações da lógica e dos limites desse pensamento moderno e da invenção de seu duplo, o pós-moderno demonizado e inclassificável. E nos interessam precisamente por trazerem as margens para o centro, por tratarem de desejos e sensibilidades, por construir e desconstruir seus próprios processos independente de categorizações precárias e provisórias, que não atendem seus interesses. Dessa forma, problematizam nossas certezas teóricas e colocam as incertezas como parte da criação de novos paradigmas, de novas concepções de sujeitos e de singularidades e de suas experiências de resistência e de reinvenção dos espaços públicos. A “utopia” do “dia que virá”, em que as diferenças são sejam transformadas em desigualdades, não é só mais um discurso militante e mobilizador, pois o que se quer ser e viver já é real para alguns sujeitos dos movimentos sociais e culturais. É, paradoxalmente, parte da realidade vivida na contemporaneidade, que não se encaixa bem em certos esquemas teóricos iluministas. Porém, é fato que tal realidade vivida diz respeito a muitas pessoas e grupos, seja como prática de liberdade, de convívio, de resistência, de constituição de novas singularidades e novas coletividades. E assim, em que pesem os esforços explicativos reducionistas e homogeneizadores, os primeiros anos do século XXI – sobretudo para movimentos sociais como movimentos culturais… – têm sido bastante polêmicos, multifacetados, plurais, polifônicos, contraditórios, ambíguos, intrigantes, heterogêneos, complexos, incertos, desafiadores… Talvez ainda impensáveis, inclassificáveis, como alguns esperavam, afinal, que fosse uma tal “utopia” do “dia que virá”… Algo que veio e que não se sabe se tornou o mundo relativamente “melhor” do que já foi algum dia, mas, certamente, o torna bem mais democrático! Um mundo de variados conhecimentos, sensibilidades e percepções dos movimentos sociais e culturais e seus sujeitos mobilizados para borrar fronteiras entre noções (des)construídas e performatizadas de conflito, paz, amor, paixão, revolução, cidadania, democracia, liberdade, diversidade, política. Um mundo em que novas e complexas tramas, roteiros, narrativas, culturas e artes são, sem dúvida, cotidianamente inventados por singularidades e coletividades para lutar por suas demandas e direitos e vivenciá-los na prática…”

por Andrea Paula dos Santos

(trecho final do artigo

“Movimentos sociais, movimentos culturais: saberes partilhados entre arte, corpo, oralidade e os estudos de performance e política”

apresentado no Seminário Internacional “Conhecimentos compartilhados: tradição e modernidade”, realizado entre os dias 1º e 07 de abril de 2013,no Memorial da América Latina – São Paulo e no Campus Caxias da UNIGRANRIO – Rio de Janeiro).

Artigo completo para baixar:

Andrea Paula dos Santos artigo movimentos sociais culturais

Para saber mais sobre o direito de viver as lutas sociais e a cidadania cultural na ambiguidade e na complexidade como transformação da cultura política tradicional e como exercício democrático para além da democracia representativa, ver também o artigo:

“Incubadoras sociais e programas universitários”

no livro digital recém-publicado MÚLTIPLOS SABERES:

multiplos saberes

Baixe em pdf no link:

17-mltiplos-saberes

(pp. 87-116)

ou em outro formato:

http://www.editorapontocom.com.br/l/17/M%C3%BAltiplos-saberes%3A-ensaios%2C-confer%C3%AAncias-e-comunica%C3%A7%C3%B5es

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